Relatos de experiência
retratos da diversidade de possibilidades na Arteterapia
Resumo
O ano de 2020 trouxe inúmeros desafios de caráter universal. Todos os países e continentes viram-se forçados a modificarem suas maneiras de existir, de se relacionar, de se expressar, por conta da pandemia de Covid-19, que ainda atravessa as nossas vidas. O isolamento social somou-se a temores do contágio pelo vírus, a frustrações de projetos não realizados, a conflitos intrafamiliares, à dor da perda de familiares e entes queridos, dentre tantos outros problemas que nos afetaram. A superação da solidão resultante do distanciamento social, elencado como um dos poucos recursos para se enfrentar o contágio pelo coronavírus, veio por meio dos recursos eletrônicos como meio de comunicação entre as pessoas. Aulas, consultas de saúde passaram a ser feitas de modo remoto. A Arteterapia teve papel protagonista nesse cenário, mostrando-se rica em recursos para colaborar com o manejo das crises trazidas pela pandemia e o modo de vida decorrente dela, reinventando-se para poder acolher as demandas que se constelam no período pandêmico, bem como prosseguir com atendimentos que já estavam ocorrendo, e que também foram ressignificados pelas novas questões do período. Este volume é composto por uma maioria de artigos escritos antes da pandemia, mas traz um primeiro relato de experiência de atendimento remoto em Arteterapia. Passemos a uma visão geral sobre o conteúdo deste volume.
O primeiro artigo, Fototerapia – um processo arteterapêutico pelo mundo das imagens, produzido por Cecília Branco de Souza, fundamenta-se na Psicanálise e concebe as imagens como importante via de acesso ao inconsciente. A autora, que trabalhou com o álbum de família em seus atendimentos, propõe que as imagens fotográficas influenciam a comunicação interpessoal e levam à transformação social. Foi trazido à análise o processo de uma paciente adulta, participante de uma série de oficinas de fototerapia. A autora conclui que a fotografia mostrou-se um rico recurso mediador ou projetivo, quer entre paciente e terapeuta, quer entre imagem e palavra, quer entre consciente e inconsciente. A emergência de conteúdos inconscientes, o ressignificar de verdades podem ser caminhos para a transformação.
Na sequência, contamos com o texto de Daniele Oliveira Castelan, Arteterapia com idosos inseridos em universidades abertas à terceira idade. Como ponto de partida, foram utilizados relatos dos participantes, que apontavam para questões relacionadas à carência afetiva, rebaixamento de autoestima e sintomas depressivos. O trabalho se desenvolveu por meio da criação de histórias e personagens com foco no cuidado com os aspectos emocionais do envelhecimento saudável, o que culminou com o resgate da autoestima e da confiança para a busca de novas realizações.
O relato de experiência, Arteterapia e Psicologia inovando no atendimento on-line em tempos da COVID-19, de Adriana Maria Mendes, Cláudia de Cassia Maganha Vanni Masseran e Cassia Regina de Toledo Rando, tem como proposta trazer à luz a experiência de atendimento on-line, síncrono e eventualmente, não síncrono, em virtude da emergência sanitária global por conta da pandemia causada pelo coronavírus. A experiência se deu com um grupo de mulheres frequentadoras de um CAPS I (Centro de Atenção Psicossocial I) localizado em um município do interior paulista, em sessões semanais conduzidas por arteterapeuta e psicóloga, entre os meses de abril e julho de 2020. O projeto de atendimento on-line conseguiu manter o vínculo afetivo entre os participantes do grupo, bem como entre o grupo e as terapeutas, contribuindo para a resiliência do grupo no enfrentamento aos desafios trazidos pela pandemia.
A seguir, encontramos a produção de Maira Bruce Valença, também um relato de experiência, intitulado O Temenos: um olhar sobre o setting – espaço tempo de encontro das vivências arteterapêuticas. O setting arteterapêutico é aqui colocado em pauta, sendo concebido como um espaço-tempo ritualístico que favorece a jornada da pessoa em relação a si mesma e ao grupo. As referências teóricas situam-se na Psicologia Analítica de Jung. A partir de suas vivências na formação como arteterapeuta, a autora analisa o tempo da experiência arteterapêutica como Kairós e o ambiente terapêutico como Héstia, que culminam com uma experiência de transformação, Temenos.
O volume encerra com o resumo Símbolos de poder como rituais do adolescer: o espaço arteterapêutico promovendo escuta, diálogo e ressignificações, de Dilaina Paula dos Santos. Este resumo refere-se a um trabalho apresentado no I Congresso Paulista de Arteterapia e IX Fórum da AATESP, realizado entre 14 e 15 de novembro de 2019. O objetivo foi registrar e compartilhar experiências em Arteterapia no atendimento a um grupo de adolescentes. No processo de desenvolvimento no ciclo de vida, esses adolescentes colocaram em questão o conflito entre assumir sua própria identidade ou aderir ao grupo de pares. O trabalho se deu por meio da construção de instrumentos musicais e da exploração dos sons e possíveis melodias deles derivados. A Arteterapia constituiu uma alternativa potente para dar voz a conflitos que dificilmente conseguiam ser verbalizados.
Aos leitores, desejamos uma proveitosa leitura. Aguardamos a contribuição de novos artigos, que podem ser inspirados no diálogo com o conteúdo deste volume, ou que estão aguardando um incentivo para se tornarem realidade e enriquecer o nosso acervo de textos. As normas de publicação encontram-se no final do exemplar.