Arteterapia em diferentes contextos

Autores

  • Leila Nazareth

Resumo

No segundo ano da pandemia de covid-19, continuamos enfrentando grandes desafios no nosso cotidiano, como perdas individuais e coletivas, restrições, sofrimentos físico e psíquicos, dificuldades nas relações sociais, entre tantos outros. A Arteterapia brasileira tem se mostrado robusta e flexível, ocupando espaços onde se identifica a necessidade de intervenção em prol da saúde mental do ser humano. Nossa produção, ainda que restrita em número, vem apresentando o olhar diversificado de nossa categoria. Reflexo dos novos tempos e dos novos hábitos desenvolvidos a partir do isolamento social, alguns trabalhos aqui apresentados centram-se no atendimento on-line. Outros ocupam o espaço institucional presencialmente, outros ainda, o contexto clínico. Essa diversidade de contextos é uma das características dos trabalhos presentes nesta edição. A criatividade na abordagem ao ser humano é o recurso inseparável da Arteterapia, que acompanha cada artigo que compõe este número de nossa Revista.

Valladares-Torres e Silva trazem para nossa reflexão o artigo Percepção de dependentes de drogas a partir de um desenho da ponte em Arteterapia associado ao processo de tratamento. Trata-se de um estudo descritivo exploratório que segue uma abordagem quantitativa, que teve como sujeitos usuários de drogas e outras substâncias psicoativas, tendo como ponto de partida o desenho de uma ponte. Os sujeitos foram organizados conforme os estágios de tratamento em que se encontravam; desse modo, foi estabelecida uma relação entre estágios de tratamento e estágios de mudança alcançados. Nesse trabalho, foram analisados os desenhos, bem como os discursos dos sujeitos sobre essa produção gráfica. As autoras concluem que o desenho da ponte como estratégia terapêutica favoreceu a verbalização de emoções e sentimentos e sugerem que tal dinâmica possa ser inserida no trabalho do CAPS-ad e em outros equipamentos de saúde mental. O caráter lúdico e criativo desse procedimento auxilia os participantes a expressarem seus sentimentos e suas emoções com maior naturalidade.

Na sequência, Glaucia Castelluber apresenta o artigo de revisão teórica Imaginação ativa e Arteterapia: possibilidades de integração. Nesse trabalho, a autora estabeleceu conexões entre a técnica de Imaginação Ativa, proposta por C.G. Jung, Arteterapia e as possibilidades de um trabalho complementar de autoconhecimento e integração da psique. Desse modo, foram discutidos alguns conceitos da Psicologia Analítica de Jung, tais como psique, inconsciente pessoal e coletivo, arquétipos, consciência e ego. A técnica de Imaginação Ativa foi focalizada por meio das contribuições de Robert Johnson. Na conclusão apresentada, foi possível notar que tanto a Imaginação Ativa como a Arteterapia atuam na facilitação do acesso a conteúdos inconscientes e podem se complementar no atendimento clínico.

Já no artigo Eu não sei desenhar: uma experiência on-line com grupos rotativos, de Maíra Betim, fruto do projeto de formação da autora, foram oferecidas 12 oficinas on-line em processo síncrono que consistiram em encontros semanais com uma hora de duração cada. Para essas oficinas foram organizados grupos abertos e a temática abordada foram os quatro elementos da natureza e suas representações mitológicas. As conclusões apontam para a importância da presença, para o acolhimento e a abertura para o novo. Destacam-se também as dificuldades do trabalho mediado por recursos digitais, como falhas na conexão e as limitações da visualização na tela. No entanto, a possibilidade de estender o trabalho arteterapêutico a grupos grandes de participantes atuou como compensação às limitações apontadas.

Priscila Reuter traz à discussão o artigo Reciclando almas: o uso de colagens e garrafas na Arteterapia para a libertação interior. A autora relata o atendimento on-line que desenvolveu com três grupos de mulheres e um caso individual, visando ao fortalecimento da autoestima, com reconstrução e libertação interior. As técnicas utilizadas foram colagem e reconstrução criativa com materiais recicláveis, particularmente garrafas, utilizadas como forma de referência ao útero, o vaso sagrado feminino, segundo as proposições alquímicas. Os quatro elementos da natureza – terra, fogo, água e ar – foram os facilitadores do acesso a sentimentos e emoções. Os mitos de Afrodite, Deméter, Isis e Fênix mediaram o acesso à alma e o processo de desenvolvimento do autoamor.

O último artigo a compor nosso exemplar é Re-criar uma história de vida: reconstruindo narrativas. O objetivo foi definido como discutir a importância da construção da história de vida junto a crianças que passaram por algum evento traumático, tendo como base o uso da Arteterapia, especificamente a técnica denominada aporte integrativo. É discutido um episódio clínico de uma criança precocemente separada de sua mãe biológica. A análise centra-se na intervenção da arteterapeuta junto à criança, na construção de uma narrativa coerente, que favorecesse a compreensão da situação traumática e respeitasse o momento de seu desenvolvimento emocional. A autora conclui afirmando que o modelo terapêutico proposto pode levar à criação de vínculos afetivos seguros, tendo a narrativa da história de vida do paciente como um recurso para a sustentação emocional.

Esperamos que a leitura dos textos reunidos aqui traga inspiração para novos olhares e ampliem as nossas possibilidades de atuação, permitindo que a Arteterapia brasileira se fortaleça e possa mostrar toda sua pujança. Desejamos, além disso, que essa leitura inspire cada vez mais a comunicação dos trabalhos tão importantes que são desenvolvidos por nossa categoria profissional. Convidamos a todos os arteterapeutas a ocuparem este espaço de divulgação científica. Para tal, consultem as normas de publicação no final deste exemplar. Uma proveitosa leitura a todos.

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Publicado

2026-03-27

Como Citar

Nazareth, L. (2026). Arteterapia em diferentes contextos. Revista AATESP, 13(1), 2–4. Recuperado de https://revista.aatesp.com.br/index.php/ojs/article/view/177

Edição

Seção

Editorial